7h40. Linha amarela. Faço cálculos mentais subtraindo à socapa os minutos que demoro a fazer o percurso para me convencer de que vou chegar a tempo. À minha frente, uma senhora folheia uma revista cor-de-rosa enquanto a vizinha do lado vê as imagens por cima do ombro. Do outro lado, um adolescente vestido com cores berrantes sorri para o telemóvel perante uma piada qualquer embrulhada numa mensagem. De pé, encostada a um banco do metro, uma rapariga segura uma mala de cartão gasta, enfeitada com recortes de revista. Prada, McQueen e Valentino desfilam lado a lado com batons, stilettos e modelos esguias que riem, ajeitando o cabelo, olhando arrogantemente para quem segura na mala com mãos despidas de adornos. Na estação seguinte entra alguém que emana um aroma familiar. Olho em volta como que a chamar a memória. As senhoras da frente já partilham a revista e encontram-se em amena cavaqueira discutindo uma novela qualquer. O adolescente do banco ao lado já tinha sido substituído por um homem nervoso que olhava para a agenda e roía as unhas. À frente da rapariga da mala encontrava-se uma mulher de cabelo arranjado, calças de vinco e unhas feitas fitando as imagens por trás dos óculos de massa com um desprezo manifesto. Próxima paragem, anuncia a voz metálica. É a minha, penso, enquanto continuo irritada por não estar a conseguir identificar aquele aroma com fundo de âmbar e baunilha. Encaminho-me para a porta enquanto o metro abranda e ponho-me entre a rapariga e a mulher (ah, cá está a dona do perfume), mesmo a tempo de perceber o olhar despretensioso que a rapariga lhe dirige: "Pisa devagar porque estás a pisar os meus sonhos" e, de repente vem-me um nome à cabeça Le cinema. Enquanto saio do metro lembro-me de alguém que envergava esse aroma elegante e sofisticado fazendo das aparências a sua arma. Uma actriz, portanto. Tento-me lembrar do nome dela e pergunto-me onde estará agora. Provavelmente, a representar perante uma plateia vazia. Tenho pena de ter saído do metro antes da rapariga. Talvez lhe tivesse dito que fazer sentir os outros mal não é sinónimo de força, mas sim sinal da própria fraqueza.
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